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Gripe A H1N1: o Mundo sofre primeira pandemia do século XXI |
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23-12-2009 15:51
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| © TV Ciência |
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Elevado para o nível máximo o estado de prevenção da gripe A. O mundo sofre a primeira pandemia de gripe do século XXI. A Organização Mundial de Saúde mantêm-se em permanente alerta e os cientistas estabelecem redes de investigação onde o conhecimento é explorado ao limite numa corrida entre o novo vírus e o desenvolvimento de uma vacina. Entretanto, os números estão em crescimento, em apenas 3 meses mais de 50 mil pessoas foram infectadas com a gripe A e em consequência mais de 230 morreram.
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Estávamos em 1918 e em todo o mundo a gripe espanhola foi responsável pela morte de mais de 50 milhões de pessoas. Uma gripe provocada pelo vírus Influenza A do subtipo H1N1.
É o vírus Influenza A, que está de volta mas ao que parece é menos letal que a estirpe de 1918.
Apesar de ser do subtipo H1N1, os cientistas já chegaram à conclusão que o vírus terá sofrido uma mutação, apresentando novas características genéticas.
«Este vírus da gripe A é um novo vírus do sub-tipo H1N1, ele, tem uma grande particularidade, os genes que codifica para a hemaglutinina é semelhante ao encontrado em estirpes que infectam os porcos nos Estados Unidos e os genes que codificam para a neuraminidase e matriz, são provenientes de estirpes do vírus da gripe que infectam os porcos na Ásia e na Europa. E foi esta conjunção destes factores, que nunca tinha sido observada ainda nos vírus da gripe. É esta particularidade, é esta novidade que foi detectada neste novo vírus do subtipo H1N1», afirma Raquel Guiomar, Investigadora, Laboratório de Referência para o Vírus da Gripe, INSA.
«Portanto, o que se passa neste momento é que aconteceu a ocorrência, surgiu um vírus completamente novo, um vírus que apesar de ser H1N1 incorpora genes quer da ave, quer do humano, tendo sido misturado também com genes no porco. É um vírus completamente novo e portanto, apanha a população completamente desprevenida», explica Fernando Maltez, Médico, Director do Serviço de Doenças Infecciosas, Hospital Curry Cabral.
Uma recombinação genética que para os cientistas poderá ter ocorrido a partir da passagem do vírus da gripe das aves para um hospedeiro suíno, que enquanto servia de hospedeiro foi infectado por um vírus da gripe humana.
O porco serviu de incubadora, dando origem a um novo subtipo do vírus, passível de infectar os humanos, e daí a designação de gripe suína.
«Pensa-se que a origem do vírus que infecta hoje, que infecta agora o homem tenha tido origem no porco. Mas o porco é, no fundo um dos animais onde se pode haver o rearranjo destes vírus. Porque há vírus provenientes de aves que também infectam o porco, e aí haver o rearranjo porco/ave. E depois a passagem porco/homem, então pode transportar alguns genes provenientes das aves», refere Raquel Guiomar, Investigadora, Laboratório de Referência para o Vírus da Gripe, INSA.
Conhecido o porco como o hospedeiro do vírus, o consumo de carne suína diminui. Uma situação que levou a OMS a alterar a designação de gripe suína para Influenza A.
«Não há o contágio através do consumo da carne de porco. O vírus é transmitido a partir de aerossóis, e é transmitido a partir do sistema respiratório superior, através dos aerossóis, através de partículas de saliva, e não é transmitido a partir da carne», adianta Raquel Guiomar, Investigadora, Laboratório de Referência para o Vírus da Gripe, INSA.
Hoje, a grande preocupação é que o novo subtipo H1N1 tem a capacidade de ser transmitido entre humanos.
«É um vírus humano, que infecta humanos e que tem a capacidade, teve algures no tempo a capacidade de passar porco/homem e a novidade, o que é mais preocupante é que ele agora consegue passar de homem a homem. Portanto, este é um vírus humano que teve uma origem no porco», adianta Raquel Guiomar, Investigadora, Laboratório de Referência para o Vírus da Gripe, INSA.
De acordo com dados da OMS, até ao momento o novo subtipo Influenza H1N1 já infectou 52 mil 160 indivíduos e foi responsável pela morte de 231 pessoas.
Pensa-se que a primeira infecção de humanos terá ocorrido no México, no Estado de Veracruz, na cidade de La Gloria.
A 6 de Abril de 2009 e a partir do México, o vírus Influenza espalhou-se pelo mundo, os primeiros casos foram detectados nos Estados Unidos, a seguir Espanha, Escócia, Canadá, Nova Zelândia, Alemanha, Áustria, Suíça, Holanda e um pouco por todo o lado. Portugal vê o primeiro caso confirmado em 4 de Maio.
«Os resultados da investigação laboratorial realizada no Centro de Referencia da Gripe da Organização Mundial de Saúde, em Londres, confirmaram que o único caso que Portugal colocou sobre investigação foi positivo. A paciente não apresenta sintomas há vários dias, nem representa risco da transmissão da infecção a terceiros. Teve alta clínica», afirma Ana Jorge, Ministra da Saúde.
O método de transmissão do vírus entre humanos é semelhante ao vírus da gripe sazonal.
O vírus influenza é transmitido através das gotículas que são normalmente expelidas quando falamos por um espirro ou por um contacto físico directo, como um beijo.
Após a transmissão, o vírus viaja através do tracto respiratório. O vírus infecta principalmente as células da mucosa e destrói-as em 1 a 3 dias.
Aqui o período de incubação é o período que decorre deste o momento em que se adquiriu o vírus até ao momento em que se desencadeia sintomas. O período de transmissibilidade do vírus pode iniciar-se um bocadinho antes do aparecimento dos sintomas. No caso do vírus da gripe sazonal pode iniciar-se para ai dois dias do aparecimento dos sintomas e ir até sete dias depois do seu aparecimento», explica Fernando Maltez, Médico, Director do Serviço de Doenças Infecciosas, Hospital Curry Cabral.
24 Horas após ser infectado com o vírus Influenza, o corpo reage apresentando sintomas de doença.
Sintomas que se podem assemelhar aos da gripe sazonal.
«Se efectivamente este vírus se comportar como o vírus habitual da gripe sazonal, serão de esperar as manifestações habituais da gripe pelas quais todos nós já passámos. Sabemos quais são: a febre, o ardor ocular, a rouquidão, o lacrimejo, o corrimento nasal, dor de cabeça. Enfim, todos nós sabemos quais são as manifestações. Mas obviamente, que não se pode dizer que é exactamente assim, porque ainda não está caracterizado», refere Fernando Maltez, Médico, Director do Serviço de Doenças Infecciosas, Hospital Curry Cabral.
Dentro do organismo, o Vírus Influenza penetra a camada protectora do epitélio e entra nas células do tracto respiratório. Estas células são depois reprogramadas de tal forma que toda a sua energia é redireccionada para a produção de novas partículas virais …estas vão depois infectar outras células.
O vírus prolifera explosivamente através do tracto respiratório.
O combate, é actualmente feito com recurso a um antiviral.
«O antiviral, que está a ser utilizado é o Oseltamivir, sabe-se que esta nova estirpe do grupo A é sensível a esse anti-viral, e portanto, é o recomendado para a utilização nos casos de infecção por este agente», adianta Raquel Guiomar, Investigadora, Laboratório de Referência para o Vírus da Gripe, INSA.
Oseltamivir da farmacêutica Roche é conhecido por Tamiflu.
Deve ser tomado logo após o surgimento dos sintomas para prevenir a formação de partículas virais e de estas se desprenderem das células infectadas.
Desta forma deixa de haver a proliferação do vírus.
Isto acontece, ao bloquear o local activo da neuraminidase, que de outra forma ajudaria as partículas virais a se desprenderem das células infectadas.
As partículas virais permanecem anexadas às células e não podem provocar mais danos. A doença é significativamente diminuída.
O Tamiflu tem sido produzido em grandes quantidades pela Roche que tem trabalhado em conjunto com a Organização Mundial de Saúde e as Autoridades Governamentais, para assegurar os stocks do medicamento em todo o mundo.
Logo após a OMS ter subido o Nível de Alerta Pandémico para 5 numa escala de 6, a Roche aumentou a produção prevendo-se que até ao final do ano de 2009 haja capacidade para tratar 36 milhões de pessoas por mês.
Mas a prevenção aparece como o tratamento mais seguro e os governos passam a campanhas de informação.
«Perante sintomas sugestivos de gripe, de deslocação a áreas afectadas ou de contacto com doentes confirmados, o Ministério da Saúde aconselha aos cidadãos que contactem com a linha de saúde 24 - 808 24 24 - e sigam as recomendações feitas pelos profissionais de saúde», refere Ana Jorge, Ministra da Saúde.
Recomendações que passam por:
- Evitar o contacto com outras pessoas
- Permanecer em casa
- Cobrir a boca e o nariz com máscara ou um lenço
- Lavar as mãos com frequência
- Evitar o contacto das mãos com os olhos, boca ou nariz
- Limpar objectos ou superfícies que tenha tocado com as mãos
Medidas que fazem parte dos Planos de Contingência da Gripe.
«Sem subestimarmos a seriedade da situação, acreditamos que estamos preparados para lidar com ela. Portanto, não há necessidade de entrar em pânico. O facto de nos termos vindo a preparar na União Europeia para uma situação como esta, desde há alguns anos, e a experiência ganha até agora, coloca-nos numa posição mais forte», afirma Androulla Vassiliou, Comissária Europeia para a Saúde.
Cientistas em todo o mundo estão já a trabalhar na descodificação do genoma do novo vírus.
Uma informação importante para um combate mais eficaz, dado que o desconhecimento se traduz em insegurança para os especialistas.
«Sabemos que nos casos conhecidos na Europa - e nos Estados Unidos, a violência e a virulência do vírus provocou algumas mortes no México - mas a maioria dos casos evolui como uma gripe comum. E são estes os dados que conhecemos até ao momento», explica Raquel Guiomar, Investigadora, Laboratório de Referência para o Vírus da Gripe, INSA.
«O caso clínico em Portugal é um caso clínico de grande benignidade. E, portanto, juntando este caso clínico de grande benignidade e tendo em conta que na Europa ainda não aconteceu nenhum caso de gravidade, pelo menos que tenhamos conhecimento não aconteceu nenhuma morte. Isto faz-nos pensar que o vírus possa ter alguma benignidade. E que até possamos estar perante um quadro de pandemia, de infecção disseminada a todos os continentes mas por um vírus que efectivamente nem tenha maior gravidade do que um vírus habitual da gripe sazonal», refere Fernando Maltez, Médico, Director do Serviço de Doenças Infecciosas, Hospital Curry Cabral.
Sabe-se que o vírus Influenza não afecta de igual modo todas as pessoas, já que as consequências dependem de hospedeiro para hospedeiro.
«A própria agressividade do vírus, as condições ambientais em que essa infecção ocorre, as condições clínicas do doente que infecta. Pode ser um doente que possa ter outra morbilidade qualquer. Ter uma doença cardíaca ou uma doença pulmonar que facilita a agressividade e portanto há um conjunto de sintomas que determinam depois o quadro clínico ou ajudam a contribuir para o quadro clínico. Portanto, isso é perfeitamente natural», adianta Fernando Maltez, Médico, Director do Serviço de Doenças Infecciosas, Hospital Curry Cabral.
As condições ambientais são também essenciais para a sobrevivência do vírus.
«Portanto, este é um vírus, em que o vírus da gripe circula essencialmente, com factores climatéricos, de elevada humidade, baixas temperaturas. No hemisférico Norte, agora estamos a aproximarmos exactamente do contrário, estamos a aproximar-mos de uma época em que as temperaturas vão subir, em que a humidade vai baixar e isso vai diminuir a resistência do vírus fora do organismo humano. E portanto, evitar assim, diminui a probabilidade de novos contágios», afirma Raquel Guiomar, Investigadora, Laboratório de Referência para o Vírus da Gripe, INSA.
Mas a grande preocupação dos cientistas é a possibilidade do vírus desenvolver resistência ao Tamiflu.
«O grande problema que pode acontecer é realmente essa possibilidade de uma mutação. O vírus como eu disse está em permanente variabilidade antigénica, pode evoluir para formas mais benignas mas também pode evoluir para formas mais graves. O vírus ao mudar para formas mais ou menos agressivas pode mudar a sensibilidade ao medicamento como pode, eventualmente, se viermos a ter uma vacina feita ou desencadeada neste momento, quando ela estiver pronta já não ser eficaz para um novo vírus», explica Raquel Guiomar, Investigadora, Laboratório de Referência para o Vírus da Gripe, INSA.
Dada a rapidez com que a mutação pode ocorrer, o desenvolvimento de uma vacina é prioridade máxima.
«No que diz respeito ao diagnóstico e tratamento, concordamos que devemos usar uma definição comum de forma a identificar os casos de infecção. Vamos também cooperar na ciência e investigação, não apenas uns com os outros mas também com a indústria farmacêutica. Isto deve possibilitar que desenvolvamos a vacina contra o novo vírus influenza sem nova demora», refere Daniela Filipiová, Ministra da Saúde Checa e Presidente do Conselho da União Europeia.
A rapidez é essencial porque se o novo sub-tipo H1N1 funcionar como um vírus da gripe sazonal, sabe-se que o vírus Influenza tem a característica de sofrer rápidas mutações e adaptar-se facilmente. Já que é capaz de alterar a superfície das suas proteínas. Esta capacidade de mudança, dificulta o trabalho do sistema imunitário…
É por esta razão que o Influenza é capaz de infectar milhões de pessoas todos os anos.
Se as mudanças na superfície das proteínas são muito significativas, a completa incapacidade imunitária, pode resultar em epidemia ou pandemia mundial.
Em geral, as vacinas para o Influenza consistem em misturas da superfície das proteínas das várias estirpes. E são estas, que preparam o nosso sistema imunitário para as estirpes que são esperadas numa determinada estação do Influenza.
Neste momento os cientistas procuram estudar as amostras dos vírus recolhidas nos indivíduos infectados no mundo, para a produção de uma vacina.
«Com o conjunto de toda a informação que está a ser reunida, que foi num curto espaço de tempo, eu penso que, e isso não se prende aqui com o nosso trabalho. O nosso contributo com todos os casos detectados também vai fortalecer a boa decisão relativamente à vacina. Eu não sei, em quanto tempo, talvez 3 meses, pode ser que para o próximo inverno já tenhamos uma vacina que seja dirigida a este novo tipo de vírus da gripe e isso seria um bom trunfo, num combate a uma possível pandemia», adianta Raquel Guiomar, Investigadora, Laboratório de Referência para o Vírus da Gripe, INSA.
Os cientistas elaboram estudos e produzem conclusões, como a que a severidade da gripe A, H1N1, é comparável ao que provocou a pandemia da gripe em 1957, que ficou conhecida pela Gripe Asiática.
Mas este subtipo parece ser menos mortífero do que o subtipo que esteve na origem da gripe espanhola de 1918.
Entretanto os números de pessoas infectadas em todo o mundo não para de aumentar levando a OMS a subir para o nível de gravidade 6, ou seja, está instalada uma pandemia de gripe A.
Em Portugal foram já confirmados 6 casos e os especialistas avançam que a gripe A pode levar à morte 4 em cada 1000 pessoas infectadas.
Para a OMS o novo vírus poderá vir a infectar um terço da população mundial.
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