Nº 24 Set. 2010
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Cientistas portugueses conseguem reeducar linfócitos T que originam doenças auto-imunes
16-12-2009 
 
© TV Ciência
A esclerose múltipla como outras doenças auto-imunes, são em muitos casos causadas por células que têm também a missão de nos defender das diversas doenças e infecções. Inverter a acção destas células, os linfóticos T, através de um processo de reeducação, é o que agora parece ser possível depois de investigadores do Instituto de Medicina Molecular, terem conseguido identificar as populações de linfócitos T que apresentam esta dualidade.
As células do sistema imunitário têm a função primeira de defender o organismo, como seja de infecções ou dar resposta de combate a tumores.

Mas há células do sistema imunitário, os linfócitos T, que de amigos se transformam em responsáveis por levarem o organismo, a desenvolver doenças auto-imunes, como a diabetes ou a esclerose múltipla.

Bruno Silva-Santos é Director da Unidade de Imunologia Molecular, do Instituto de Medicina Molecular em Lisboa e tem-se dedicado ao estudo da bipolaridade destes linfócitos T.

«Os Linfócitos T, são globos brancos, que se chamam T, porque se diferenciam no Timo e o Timo é um órgão que fica mesmo por cima do coração», afirma Bruno Silva-Santos, Director da Unidade de Imunologia Molecular, IMM e explica «E, o Timo, gera então estes globos brancos, que tem sobretudo funções de combater todo o tipo de infecções, vírus, bactérias, etc., mas ao mesmo tempo são muito importantes para manter as nossas respostas contra os tumores, que se tentam desenvolver dentro de nós» e adianta «Apesar, de tudo isto, parecer muito benéfico, a verdade é que os Linfócitos T, também são os causadores das doenças auto-imunes. Digamos que é o reverso da medalha».

Apesar das funções antagónicas dos linfócitos T serem já conhecidas. Num estudo desenvolvido in vitro com células do Timo e in vivo com ratinhos de laboratório, os cientistas do Instituto Medicina Molecular conseguiram identificar duas populações de linfócitos T responsáveis por estas acções.

As duas populações distinguem-se pela presença de uma proteína, ou receptor à superfície da célula, a CD27.

«A que tem CD 27 à superfície, que nós identificámos com os tais anti-corpos que reconhecem o CD 27, são as que produzem o Interferão Gama e que têm as funções muitas claras em termos de combater a infecção através do Interferão Gama, e que nós pensamos que podem ser muito úteis, para o combate aos tumores, devido ao próprio Interferão», refere Bruno Silva-Santos, Director da Unidade de Imunologia Molecular, IMM Os cientistas verificaram que a outra população que tem origem na mesma célula-mãe, resulta da proteína CD27 negativa e dá origem à Interleucina 17.

«Que está muito claramente implicada nas doenças auto-imunes. Em particular, em ratinhos, viu-se que a esclerose múltipla e o modelo animal para a esclerose múltipla é causada pela Interleucina 17», afirma Bruno Silva-Santos, Director da Unidade de Imunologia Molecular, IMM

Os cientistas conseguiram distinguir estas duas populações, graças à utilização de um anticorpo para o receptor CD27, denominado de CD70.

«Quando temos essa molécula e a administramos ao tubo de ensaio ou ao ratinho, essa molécula liga-se ao receptor e dá o sinal para dentro da célula. Portanto, através da administração deste composto, conseguimos fazer com que a célula respondesse ao sinal do receptor e podíamos, estudar qual era o efeito desse sinal», explica Bruno Silva-Santos, Director da Unidade de Imunologia Molecular, IMM

Ao atingir o CD27, os cientistas não só conseguiram distinguir as duas populações como manipulá-las.

Já que, quando o CD27 é atingido pela CD70, transmite sinais à célula mãe, que a levam a produzir células defensoras do organismo, em vez das agressoras.

Um processo que permite uma manipulação das acções dos linfócitos T e que os cientistas denominaram por ‘re-educação’.

«Neste caso, é ir ao Timo, ao órgão dos globos brancos, em particular os Linfócitos T, se diferenciam e fazer com que eles sofram um processo diferente de diferenciação», refere Bruno Silva-Santos, Director da Unidade de Imunologia Molecular, IMM e adianta «Se nós activássemos o CD 27, na célula mãe - porque a célula mãe tem CD 27 através do tal reagente que é o CD 70, o seu ligando - a célula mãe decidia ir para o lado da célula filha que mantinha o CD 27 e que fazia o tal Interferão Gama, e não dava origem às células que não tinham CD 27. Portanto, digamos que nós reforçamos aquela escolha entre CD 27 positiva ou negativa, para ir tudo para o lado da CD 27 positiva».

A investigação está ainda numa fase inicial, mas os cientistas já estudaram o efeito da proteína CD27 positiva em células humanas.

«Nós temos um projecto em decurso, que é a verificação destes dados, em células humanas. E já vimos que as células humanas que têm CD 27, os Linfócitos T, matam mais eficazmente tumores humanos, in vitro claro, no tubo de ensaio, não estamos a fazer as experiências com pacientes. Mas, no tubo de ensaio, se pusermos o tumor humano com células, Linfócitos T humanas, a CD27 positivas que têm à superfície, matam mais eficazmente os tumores», afirma Bruno Silva-Santos, Director da Unidade de Imunologia Molecular, IMM.

Resultados que abrem novas esperanças para o desenvolvimento de terapêuticas em humanos.

Estes são avanços importantes na ciência, que poderão vir um dia a dar origem a novas terapêuticas.

«Claro que a translação directa do que nós fizemos em ratinho seria produzir o tal CD 70 que liga ao CD 27. Um CD 70 humano que pudesse ser injectado num paciente e activar o CD 27 no paciente, tentando fazer a tal reeducação, dentro do paciente, de forma a que ele passasse a produzir mais células, que nós pensamos, são particularmente úteis, para o combate a tumores e infecções», explica Bruno Silva-Santos, Director da Unidade de Imunologia Molecular, IMM.

Uma terapêutica com base numa molécula solúvel injectável que poderia funcionar como vacina para prevenção do desenvolvimento de doenças.
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