Nº 24 Set. 2010
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Portugueses foram pioneiros no estudo da astronomia
14-12-2009 15:40
 
© TV Ciência
Documentos do século XVI e XVII estão expostos ao público na Exposição ‘Registos do Céu’, na Torre do Tombo, para dar a conhecer a participação dos portugueses na história da Ciência e Astronomia.
Como se explica a capacidade de Portugal, nos séculos XV e XVI quando por mares ‘nunca antes navegados’, como escreve o poeta Luís de Camões, os portugueses se aventuraram.

Talvez se compreenda que a aventura de que a história fala, era suportada por elevado conhecimento científico. Navegar exigia conhecer e estudar os astros.

E neste ano Internacional da Astronomia, a Direcção-Geral de Arquivos dá a conhecer quatro documentos antigos, que são testemunhos da importância de Portugal na história da Astronomia e da Ciência.

O mais antigo caderno de navegação até agora conhecido, o ‘Livro da Marinharia’, de 1560, da autoria de João Lisboa. «Este documento é de grande importância na história portuguesa porque mostra, o que se sabia por outras indicações mas que aqui fica perfeitamente claro, que os portugueses faziam estudos sistemáticos do desvio da agulha magnética. As agulhas magnéticas têm um pequeno desvio, não apontam propriamente para o Norte geográfico. Apontam para o Norte magnético que não coincide», explica Henrique Leitão, Investigador do Centro de História das Ciências, da Universidade de Lisboa e Comissário Científico da Exposição.

O caderno descreve o chamado Tratado da Agulha de Mariar e ilustra e dá testemunho que os portugueses faziam estudos científicos no domínio do campo geomagnético.

«Isto é uma novidade na história da ciência», afirma o Comissário Científico e adianta que, «podemos perfeitamente dizer, com base neste documento e noutros, que as primeiras pessoas, o primeiro povo a fazer estudos sistemáticos de campo magnético terrestre em longas zonas do globo foram os portugueses. Este é um aspecto que não pode de maneira nenhuma ser esquecido na história da ciência portuguesa e que este documento mostra».

A exposição ‘Registos do Céu’ apresenta, na Torre do Tombo, os documentos originais e ao mesmo tempo recorre a tecnologias multimédia interactivas para dar ao leitor visitante a capacidade para explorar as obras.

Também agora, como no passado, a ciência e desenvolvimento tecnológico são mares que os portugueses navegam. «Todos os Arquivos do mundo se estão a deslocar nesta direcção e a própria natureza do que é um arquivo está a mudar muito por causa disto. É muito interessante ver que um dos mais importantes dos Arquivos portugueses está perfeitamente a par, acompanhando este movimento e mostrando que o pode fazer muito bem. E também é bom o público indo habituando-se a isto, este contacto com os documentos que já não é feito por uma inspecção directa do documento – obviamente que eles estão aqui – mas que é feito como um documento digitalizado, que se pode desfolhar, andar para trás, andar para a frente, pode-se fazer zooms, pode ser visto com outro cuidado», refere Henrique Leitão.

Com data de 1500, a ‘Carta de Mestre João’ apresenta pela primeira vez naquela época o Cruzeiro do Sul. Um trabalho que se pensa tenha sido realizado ao serviço do Rei D. Manuel I e que hoje, enquanto artefacto, também é história.

«Para o público eu acho que o primeiro interesse é ver o papel onde está escrito. Depois o que o documento contém, neste caso, é apenas uma descrição dos céus estrelados na zona do Brasil e que contempla também a observação desta Constelação nova até então, nunca observada, e que está localizada muito perto do Pólo Sul e, portanto, depois vai ser muito importante na história da Astronomia e na história da Navegação», explica o Comissário.

Mas é o ‘Tratado da Esfera’ que melhor mostra o nível do pensamento científico português, no início do século XVII. A obra é composta de notas das aulas ministradas pelo professor jesuíta, Giovanni Paulo Lembo, no Colégio de Santo Antão, em Lisboa.

«Este documento, que é uma preciosidade na história da ciência portuguesa, mostra que já se faziam observações telescópicas em Portugal em 1615, o que é muito cedo porque Galileu começou a fazê-las em 1610, mais ou menos. Mostra que muito rapidamente isto em Portugal era muito conhecido», afirma Henrique Leitão e adianta em relação ao documento que «tinha ainda um interesse suplementar que o torna um documento famoso no mundo, já não só em Portugal. É que no final há umas instruções sobre o modo de fazer telescópio e são das primeiríssimas senão as primeiras, mas das muito primeiras, instruções que se conhece no mundo inteiro sobre como fazer telescópios. E estão neste manual, nestas cópias de aulas deste Professor português que dava aulas em Lisboa. Isto mostra, por exemplo, que em Lisboa se construíam telescópios em 1615, o que é notável e por miúdos de um colégio jesuíta integrado na cultura de ciência jesuíta, que é um episódio muito importante na história da ciência portuguesa».

Outro testemunho do nível científico é dado a conhecer pelo códice de astronomia e astrologia ‘Galatas de curiosidades matemáticas’, escrito por André de Avelar. O códice apresenta ilustrações, desenhos, mapas e instrumentos de medição.

«Porque é que ele está aqui mostrado? Está porque nos dá uma indicação muito boa do que é que era o saber na cultura portuguesa em geral no final do século XVII. E vemos que é um saber interessante. A história da ciência não é só uma história de génios, é uma história do que é que as pessoas sabiam, o que é que as pessoas comentavam, o que é que realmente era o património científico que as pessoas entendiam. E isso está muito bem documentado neste texto, que é uma compilação da altura, é muito cuidada, é muito bem feita e ficamos a saber um pouco o que é que uma pessoa culta da segunda metade do século XVII, sabia de astronomia, de cosmografia, de matemática», explica o Comissário.

Em exposição estão também réplicas do quadrante e astrolábio para que o visitante possa experimentar, o saber do tempo longínquo. Um saber que ajudou a construir o de hoje.

«Este espaço julgo que foi pensado para que as pessoas, nomeadamente, os mais jovens que vêm visitar a exposição, durante estes cerca de quatro meses, possam ter um local onde contactar directamente com os instrumentos, experimentá-los, verem a forma como funcionavam na época e ver o rigor que eles comportam, por vezes comparados com outros métodos electrónicos que nós temos hoje em dia como é o caso do GPS», explica António Manuel Gonçalves, Comandante da Marinha e Comissário Científico da Exposição.

Usado pelos navegadores portugueses, mesmo antes do século XV, o quadrante é um medidor de ângulos, como explica o Comandante. «Ele é utilizado colocando, se for em relação ao solo, no meridiano do astro, ou seja, quando o astro está em passagem meridiana superior, ou seja, ao meio-dia local. E nessa passagem meridiana faz-se coincidir a luz do sol pelos dois orifícios do instrumento. E nessa medida orienta-se o instrumento para que essa coincidência seja possível e no momento em que isso acontece regista-se o valor da inclinação, que é o ângulo entre o horizonte e o astro».

O astrolábio náutico terá sido adaptado do astrolábio planisférico e como medidor de ângulo apresentou vantagens em relação ao quadrante. «Com a vantagem relativamente ao quadrante, sendo um instrumento mais pesado porque o quadrante era madeiro e o astrolábio já fundido numa liga de cobre, um instrumento mais pesado e, portanto, mais estável e que minimizava o balanço do navio, porque a bordo em navios relativamente pequenos que eram utilizados na época esse problema tinha implicações relativamente ao rigor das observações que eram feitas com esse instrumento».

E como era feita a medição? «Exactamente com o mesmo processo do quadrante que pressupõe fazer coincidir a luz do astro, ou mirar o astro no caso de ser uma estrela, através de dois orifícios», responde o Comissário e adianta que «no fim de contas, é fazer uma mirada e quando esse processo se alcança verifica-se na respectiva escala qual o ângulo que o observado, ou seja, o ângulo entre o horizonte e o astro. Muito embora os astrolábios desde muito cedo começaram a ser graduados não em alturas, que é a escala de zero a 90 graus, coincidindo o zero com o horizonte e os 90 graus com o zénite, mas sim em distâncias zenital, que é o contrário, ou seja, no horizonte é 90 graus e no zénite é zero, porque isso obrigava os pilotos a fazer menos uma conta, porque é a distância zenital na realidade que é utilizada para o cálculo da latitude e não a altura».

Instrumentos que marcam a navegação portuguesa na época dos Descobrimentos. «O quadrante permitiu o descobrimento, o regresso do Golfe da Guiné, da zona da Mina a Lisboa. Aquela ideia que nós temos de que os descobrimentos na Costa Ocidental Africana foram dados por pequenos passos e o dobrar dos Cabos, nomeadamente o Bojador, prendeu-se com a dificuldade que os navegadores tinham em poder regressar», explica António Manuel Gonçalves. «Isso só foi possível com a descoberta e a utilização de um instrumento com estas características e que permitisse aos navegadores em pleno oceano obter uma noção do sítio onde se encontravam. E a partir dai para onde poderiam navegar. O astrolábio, no fim de contas, é um aperfeiçoamento do próprio quadrante em termos das suas características de medir a altura ou a distância zenital dos astros. Ambos permitiram aquilo que foram as viagens dos portugueses, nomeadamente, a descoberta do Caminho Marítimo para a Índia, que de outra forma não teria sido possível porque apesar de rudimentar era um processo relativamente seguro para ter uma noção do local onde em pleno oceano se encontravam os navios».

A exposição ‘Registos do Céu” está aberta ao público na Torre do Tombo, em Lisboa até 5 de Dezembro de 2009.

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