Nº 24 Set. 2010
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Portugal pode, em breve, ter base logística na Antárctida
04-05-2010 17:44
 
Jornalista: Lúcia Vinheiras Alves / Imagem e Edição: António Manuel
©TV Ciência
Mariano Gago propõe, aos cientistas portugueses, a criação de uma base logística na Antárctida e parcerias institucionais com outros países para desenvolver investigação polar.
Antárctida ou um vasto continente com 14 milhões de quilómetros quadrados em torno do Pólo Sul. É o continente mais frio da Terra, onde a temperatura atinge os 89 graus célsius negativos. É o grande continente deserto, com uma altitude média de 2000 metros e com ventos a soprar até aos 320 quilómetros hora.

Muitos são os países que reivindicam a soberania de parcelas desta imensidão de território. Mas durante os próximos anos, a Antárctida apenas pertence aos cientistas.

«Nós assinámos o Tratado da Antárctida que é um Tratado que visa proteger o continente, torna o continente um continente apenas dedicado à Ciência, onde não se podem explorar recursos naturais pelos menos até 2040 e Portugal assinou o Tratado», explica Gonçalo Vieira, investigador do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa.

A Antárctida é hoje um espaço privilegiado para investigação em vários domínios científicos. Também aqui os cientistas portugueses têm vindo a trabalhar, em especial durante o Ano Polar Internacional.

Agora é o momento para fazer um balanço dos trabalhos realizados. E para o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, o mais importante foi conseguido.

«Agora aquilo que verdadeiramente importante aconteceu este ano no ponto de vista da investigação. Foi o facto de haver investigadores e equipas de investigação a trabalhar na Antárctida e de haver resultados científicos. Esse parece-me ser o elemento fundamental», afirma Mariano Gago.

O Ministro recorda que «há dois anos atrás havia muito poucas pessoas a trabalhar, neste momento é um grupo de mais de cinquenta investigadores a trabalhar em várias áreas, que pode neste momento discutir colectivamente o futuro». Este grupo deve ainda «perceber como é que se deve afirmar, como é que vai fazer alianças com outros países e com outras organizações, como é que se vai estruturar a investigação na Antárctida e quais as relações dessa investigação com a investigação que se faz aqui em Portugal».

Um debate que deve repensar a Investigação na Antárctida, a partir de um outro nível de suporte logístico, como seja a existência de uma base local própria.

«Devo-lhe dizer que acho que é inevitável», afirma Mariano Gago e adianta que «a partir do momento em que há muitas dezenas de investigadores, meia centena de investigadores neste momento, a trabalhar na Antárctida parece óbvio que a partir de certo momento é preciso ter sítio onde armazenar material, ter oficinas, ter instrumentos de comunicação e não é razoável imaginar que em Portugal se atingiu a maturidade científica nesta matéria e esteja disperso para sempre pelas bases dos outros a pedir por favor para ter um sítio onde se albergar. Acho que tem de assumir responsabilidades neste momento e assumir também responsabilidades relativamente a outros países que podem precisar de nós para se desenvolver».

Lançado o desafio pelo Ministro, os cientistas não possuem uma resposta, mas prometem estudar formas para continuar a investigar na Antárctida.

«A nossa resposta para já é que teremos obviamente de estudar e pensar muito bem na situação, em particular a questão da possibilidade de Portugal se envolver com logística, quais é que são as necessidades que Portugal terá para o futuro ao nível da Ciência Polar», afirma Gonçalo Vieira e adianta que «temos que ponderar muito bem quais são as necessidades das várias equipas portuguesas. E pensar com futuro, porque é preciso uma visão alargada, uma vez que são infra-estruturas que se poderiam vir a efectuar pesadas».

Para além das infra-estruturas a instalar no local, os transportes apresentam uma das maiores dificuldades. Mas é possível encontrar soluções.

«Os aspectos que eram há uns anos atrás mais difíceis – que era o aspecto dos transportes, levar e trazer pessoas, material – em grande parte estamos hoje muito facilitados. Porque existem muitas grandes potências com interesses na zona, com interesses no Atlântico Sul que já têm esses meios como, por exemplo o Brasil, portanto, não é preciso replicar isso. Pelo contrário, a existência de uma base logística local, fixa, móvel, especializada ou não, essa julgo que está na ordem do dia», afirma Mariano Gago.

Durante o Ano Polar Internacional, os cientistas portugueses desenvolveram uma intensa colaboração com cientistas de outros países. Uma mais-valia que deve ter continuidade.

«Há hoje uma colaboração estreita destes investigadores com investigadores britânicos, holandeses, espanhóis, brasileiros e com outros da América Latina e essa colaboração é uma riqueza e é uma vantagem para Portugal», afirma o Ministro da Ciência e adianta que «agora, passar essa colaboração para o plano institucional é uma das questões que está em cima da mesa».

O projecto científico PERMANTAR, coordenado por Gonçalo Vieira, tem uma das bases de estudo nas ilhas Shetlands do Sul, na Península Antárctica. «O PERMANTAR é um projecto que se dedica ao estudo do solo permanentemente gelado, portanto, o permafrost. O permafrost são todas as áreas que não têm glaciares, onde a flora, terreno à superfície, terreno não glaciado, terreno esse que está congelado durante períodos superiores a dois anos e às vezes por milhões de anos. E, portanto, nesse solo gelado estão muitas vezes informações riquíssimas de seres vivos que estão congelados há centenas de milhares ou mesmo milhões de anos», explica Gonçalo Vieira.

O que os cientistas pretendem, é compreender de que forma as alterações climáticas estão a influenciar o permafrost. «Ou seja, se houver um aumento das temperaturas atmosféricas, o solo gelado vai também sofrer um aquecimento e, portanto, vai começar a fundir com uma série de consequências importantes, como por exemplo, ao nível das infra-estruturas que estão montadas nesses terrenos, ao nível da dinâmica erosiva da paisagem e nós estamos basicamente a contribuir para um esforço mundial de instalação de uma rede de monitorização do solo gelado. Imagine uma rede de estações meteorológicas coordenadas pelos Institutos de Meteorologia nacionais, nós estamos a instalar uma rede de perfurações no solo onde medimos temperaturas a diferentes profundidades continuamente. Normalmente acopladas a uma estação meteorológica», refere o investigador.

Com base no resultado de medições ao longo de dez anos, os cientistas podem já chegar a algumas conclusões. «Nós temos uma influência muito grande da variabilidade da neve. Por exemplo, um Inverno que tenha muita neve, normalmente o solo é mais quente do que num Inverno que tenha pouca neve», explica o cientista e adianta que «há uma grande irregularidade ao nível dos Invernos. O balanço que temos parece ir no mesmo sentido do aquecimento que se verifica ao nível das temperaturas do ar. Portanto, um aumento de temperatura essencialmente ao nível das temperaturas de Verão porque o Inverno é marcado por esta irregularidade. Neste momento estamos a investir basicamente na instalação de uma série de equipamentos que nos vai permitir monitorizar ainda melhor todas as variáveis que influenciam o comportamento do solo gelado».

Preparado para instalar na Antárctida o espectrómetro, desenvolvido no Centro de Geofísica de Évora em parceria com o Instituto de Física da Atmosfera de Itália, está Daniele Bortoli.

«Este instrumento pode medir muitos gases, todos os gases que apresentam bandas de absorção estruturadas no intervalo espectral da radiação electromagnética desde o ultravioleta até ao visível», explica Daniele Bortoli, investigador do Centro de Geofísica de Évora e adianta que «uma resolução espectral muito boa permite determinar o conteúdo destes gases com muita precisão».

O objectivo dos cientistas é medir a radiação solar difundida na vertical e noutras direcções para obter a distribuição dos gases na atmosfera Antárctida.

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