Nº 24 Set. 2010
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Costa portuguesa apresenta alto potencial energético
31-05-2010 15:00
 
Jornalista: Lúcia Vinheiras Alves / Edição: António Manuel
©TV Ciência
Tecnologia para explorar energia das ondas está a ser testada em todo o mundo e começa a apresentar resultados positivos. Portugal é um dos países com maior potencial para explorar esta fonte de energia limpa.
O movimento das ondas do mar pode dentro de dez a quinze anos ter um forte impacto na produção de energia eléctrica na Europa. Esta é a convicção da Vattenfall da Noruega, uma das maiores empresas europeias de energia.

A Vattenfall, em conjunto com cientistas da Universidade de Uppsala, está a testar três tipos de tecnologia para seleccionar a que apresenta maior produtividade e proceder à instalação em grande escala de uma unidade piloto de demonstração, a entrar em operação até 2015.

A Costa Ocidental da Suécia, foi o local escolhido para testar a tecnologia desenvolvida pela empresa sueca Seabased, que utiliza o movimento da água para produzir energia.

A densidade energética da água na costa Sueca é vinte vezes superior à densidade energética do vento. Um valor impressionante, que leva a Vattenfall a investir na nova tecnologia, na perspectiva de a vir a utilizar na costa atlântica europeia, onde a densidade energética das ondas é ainda superior.

A tecnologia funciona através de bóias oceânicas desenhadas para captar o movimento das ondas. Este movimento é transmitido para um gerador linear, localizado no fundo do mar. O movimento das ondas leva a que o transdutor se mova verticalmente, e desta forma a energia cinética das ondas é convertida em energia eléctrica. Uma rede eléctrica submersa liga as unidades geradoras a uma sub-estação.

Por gerador a energia eléctrica varia em frequência e amplitude sendo a subestação responsável pela conversão para corrente alterna a 50 ou 60 hertz e transportada para uma rede de alta voltagem na costa.

«No que toca à Seabased nós temos duas unidades que estão agora colocadas nas ondas fora da Noruega e é um projecto que está ainda a decorrer, por isso, ainda não recebemos nenhuns resultados que gostaríamos desse projecto. Portanto, é ainda cedo para falar sobre isso», afirma Erik Segergren, Consultor Técnico da Vattenfall.

Mas a Vattenfall está já a testar outros dois equipamentos de produção de energia a partir das ondas. A tecnologia Wavebob na Irlanda e a Pelamis na Escócia onde as ondas são mais enérgicas do que na Suécia.

A Wavebob é uma bóia com uma estrutura de eixo simétrico equipada com ancoradouros, o que a torna ajustável à força das ondas. A capacidade de se ajustar em segundos é vital para amortecer a energia de ressonância.

Várias Wavebob funcionam em rede, estando equipadas com sistemas inteligentes para interagirem e variarem as frequências individuais para produzirem maior quantidade de energia.

Para além dos sistemas inteligentes existem vários geradores e sistemas hidráulicos, incluindo vários conjuntos de motores alternos. A corrente eléctrica é transportada por cabos submersos ao longo de quilómetros, até chegar aos locais de consumo.

A tecnologia Pelamis está a ser testada na Escócia e parece apresentar melhores capacidades. «O mais interessante é o Pelamis que até agora estamos a fazer uma diligência técnica do seu dispositivo de energia das ondas e a razão para isso é que num futuro próximo queremos comprar os produtos deles e queremos fazer dinheiro com isso. Queremos ganhar dinheiro com este investimento», afirma Erik Segergren.

O Pelamis é uma estrutura semi-submersa composta por secções cilíndricas, unidas por juntas articuladas onde se encontra um módulo de conversão de energia.

Cada Pelamis tem três módulos de energia ligados por secções tubulares. As ondas provocam o movimento dos módulos e dos tubos uns em relação aos outros. O movimento é suportado por cilindros hidráulicos que bombeiam óleo em alta pressão, o que leva ao funcionamento dos geradores eléctricos.

«Nesta fase inicial, a eficiência não é tão interessante é mais a sobrevivência. Sobreviver a grandes ondas e ser capaz de produzir electricidade a partir de ondas médias. É realmente mais importante do que ser altamente eficiente nesta altura», explica o Consultor.

As empresas Enersis e a Pelamis Wave Power deram início em 2008 a um projecto com tecnologia Pelamis na costa portuguesa prevendo uma capacidade de 2,25 MW e abastecer 1500 casas. Mas o projecto não teve sucesso.

«No Pelamis, o que correu mal?! Houve várias coisas que correram mal. Algumas de base tecnológica, outras que não são de base tecnológica. Sem ser de base tecnológica eu acho que correu mal as expectativas excessivas que foram colocadas no projecto», explica António Sarmento, Director do Centro de Energia das Ondas e adianta que «eu teria preferido que o projecto tivesse sido apresentado como um projecto de algum risco, mas que era necessário, faz parte do caminho».

Mas quais foram os problemas de base tecnológica que condicionaram o projecto? «O que se passou no Pelamis foi o que se passou noutras situações que são falhas de componentes. Não são os conceitos em si, funcionam, não há problema nenhum. Agora a engenharia com que são colocadas ali as soluções tecnológicas que são encontradas, como são sistemas extremamente complexos, a probabilidade de haver uma falha, alguma coisa que esteja mal dimensionada, mal concebida, em componentes e em aspectos pontuais, é grande e foi o que aconteceu no Pelamis. Tanto quanto eu sei, houve dois pequenos problemas a nível de componentes, a nível da forma como um conceito é tornado realidade, a forma como a engenharia foi trabalhada que obrigou a retirar as máquinas», explica António Sarmento.

Um projecto fracassou, mas as potencialidades energéticas da costa portuguesa mantêm-se. «Se formos ver as metas que os vários Estados-membros fixaram para 2020, na área da energia dos oceanos, que inclui basicamente ondas e correntes, somando essas várias metas nós temos cerca de 3600 Mega Watts previstos para 2020 e para lá de 2000 são ondas. Há no resto da Europa uma grande pujança e um grande interesse, vemos as grandes empresas a começarem a entrar nesta área e é bom que em Portugal as pessoas percebam que este é um caminho que se faz com alguns percalços e aquilo que se passou foram percalços. Não nos deve distrair daquilo que é um objectivo que é participar neste desenvolvimento», afirma António Sarmento.

Com a necessidade cada vez maior de recorrer a fontes energéticas sustentáveis, a energia das ondas pode vir a tornar-se para Portugal no recurso mais abundante.

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